17 novembro, 2009

Centenário

Se fosse vivo faria no próximo dia 21 de Novembro 100 anos. Chamava-se Avelino Lopes de Matos. 
No ano do seu centenário não podia deixar passar esta data e lembrar um homem com muitas histórias para contar. Nasceu em Pardilhó a 21 de Novembro de 1909.


Guardo com carinho lembranças doces e saudosas do meu avô, que entre muitas coisas, tinha um talento especial: pintava moliceiros. Foi várias vezes entrevistado pelo seu trabalho e o Museu Marítimo de Ílhavo lançou alguns anos atrás um livro onde faz referência à arte a que o meu avô se dedicava.

O Barco Moliceiro é o tipo de embarcação que servia para apanhar moliço", e transportar também pessoas, mercadorias ou gado. O destaque dos moliceiros são as cores usadas nos seus painéis. A variedade de painéis é vasta e revela um espírito muito popular. E o meu avô pintou dezenas de painéis em moliceiros com muita dedicação nos detalhes e nas cores.


Mas o meu avô não foi só pintor. Nos inícios da sua juventude emigrou para a França e também Venezuela. Foi também um carpinteiro muito habilidoso e possuía também o talento musical, tocando violino.
Era um homem inteligente, simpático, independente e acima de tudo generoso.

Já partiu há quase 20 anos, mas as memórias que guardo dele ainda são vívidas. Lembro-me do cheiro da comida que fazia, do pequeno -almoço que preparava, da casa onde morava, dos passeios de bateira que fazia comigo e com o meu irmão. De o ver na janela a chegar de bicicleta e ir a correr fazer-lhe um café na chávena de sempre, aquela azul e branca que a minha mãe ainda usa. Lembro-me de o ver a dormitar sentado na cadeira de mãos cruzadas, perto do sofá, quando estávamos todos a ver televisão. Quando chegava da escola e ía buscar a bicicleta a casa dele e lá vinha eu com couves e grelos atrás na bicicleta para dar às galinhas. Recordo quando plantava em casa os melanciais e fazia aquelas covas engraçadas que eu não percebia para que serviam. Da terra do norte onde tinha algumas videiras e chegou a produzir vinho. Era uma aventura quando lá ía e entrava naquele portão grande e pesado de madeira, e olhava para um poço fundo com água e ouvia o meu avô contar a história do cavalo que lá caíu.
Tantas recordações, tantos momentos que guardarei sempre comigo!
No seu centenário apenas posso lembrá-lo com carinho e dizer: foste um avô muito querido e nunca te esquecerei.
Da tua neta.